terça-feira, 3 de março de 2009

ouve cantar uma cereja?


Paisagem para Anna Akhmátova


O corpo, ainda corpo,

sabe de cor

a dor. Dizer adeus,

carpir, esconder,

bater palavras contra o muro.

Ruas de São Petersburgo

sob a neblina – o corpo

sabe de cor

onde se morre.

Mas, por entre o estridor

de soldados e funcionários,

cava uma saída:

o próximo poema

(promessa de delicadeza e silêncio)

– ouve cantar uma cereja.


(in Martelo. Rio de Janeiro: Editora Sette Letras, 1997.)
http://minhatrama.blogspot.com/

Sem comentários: